A História do Eremita Milagreiro da Ilha de Itaparica Venceslau Monteiro

 

Foto autor desconhecido - restaurada 2024

Venceslau Monteiro era pescador e comerciante da localidade de Amoreiras, possuía cabelos longos e branco, pele morena e barba grande. De andar calmo e olhos profundos, como que vasculhando o fundo do coração humano e suas necessidades mais imediatas, atendia dezenas a centenas de romeiros que diariamente o procuravam na esperança de alcançar a saúde ou restabelecer a paz.

Nascido em 28 de setembro de 1901, seus pais eram Manoel Monteiro dos Santos e Márcia Monteiro. Venceslau Monteiro dos Santos era filho único entre sete irmãs, que como tal o tratavam com especial consideração. Juntou-se com uma mulher chamada Amélia, ela o abandonou quando Venceslau teve uma estranha doença que provocava manchas vermelhas por todo seu corpo e recorrente a esta enfermidade em um período de um ano ficou cego e parcialmente surdo.

Por volta de 1942, Venceslau passa a morar na comunidade de Porto dos Santos, na casa da sua irmã Antonieta, neste período ele sonha com uma moça que aconselhava lavar as vistas na água da Fonte da Sereia, no fundo da fazenda de Eusébio Ramos, que ali tinha estabelecido o contrato das baleias, no momento em que a indústria estava em franca decadência. Venceslau identificara a moça como Nossa Senhora do Amparo, e atendendo suas recomendações e no dia seguinte em companhia de duas virgens, Zelita e Mariinha, suas sobrinhas, foi ao ponto indicado. “Nós pensamos que titio estava ficando maluco”, conta Zelita e Mariinha, “mas fomos como ele insistia em dizer para mamãe que ele iria ficar bom”; no primeiro dia lavou os olhos e voltou para casa sem que apresentasse nenhuma melhora; no segundo dias as coisas não foram diferentes, já a noite, sonhou novamente com Nossa Senhora do Amparo, que desta vez prometera guiá-lo através de vozes que somente ele escutaria, e quando chegasse ao lugar exato deveria lavar os olhos. Ainda imaginando que ele estava louco estavam pensando em interná-lo em um sanatório. Mas a sua fé era tão grandiosa que pela última vez, ele enxergou após lavar seus olhos, a primeira coisa que viu foi um peixe e desde então, ficara morando na beira do riacho durante dezoito anos.

Após recobrar a visão, Venceslau permanecera sete dias e sete noites sem comer e beber, quase sem enunciar palavras olhando para o alto e botando pela boca uma gosma rançosa o que fez seus familiares pensarem que realmente havia enlouquecido, mas ele contestava, “eu não estou louco, estou cumprindo uma missão, vocês vão ver cego enxergar, e aleijados largar muletas”. Deixou crescer as barbas e cabelos, dormia ao relento passando toda classe de privações, posteriormente dormiria sobre uma tábua, sobre uma esteira e nos últimos dias da sua vida, recostado numa cadeira acolchoada que lhe presenteara Antônio Balbino, antigo governador da Bahia. No local Venceslau mandara construir uma capelinha de sopapo, com telhado de palha, a beira da Fonte da Sereia que passou a ser chamada pelo povo de Fonte do Milagre.

Nos primeiros tempos de sua missão sua alimentação era com peixe assado na brasa e angu de milho, assim como frutas e verduras, alguns anos depois passou a comer apenas legumes e frutas, sua alimentação era preparada por suas irmãs. Ele tinha como animal de estimação uma cobra enorme, tipo coral, cujo nome era Cidina, a qual dormia durante o dia debaixo da tábua onde Zelita dava água aos romeiros e um beija-flor, que estava sempre no seu ombro e que, até hoje, ainda é avistado por aqueles que visitam a fonte com fé.

A fazenda de Enrique Galvão foi vendida para Ajax Baleeiro, o qual intimou Venceslau a sair do Milagre ou a pagar o valor estipulado pelas terras. O eremita recusou-se a pagar e em resposta, Ajax enviou 12 homens armados os quais, não se sabe o porquê, não se atreveram dirigir uma palavra a Venceslau. Dias depois voltaram e desta vez com o dono da fazenda. Eles apareceram bem cedinho com um sujeito chamado Anfrísio Vieira Lima e de vários homens que se diziam policiais. “Anfrísio puxou o revólver para meu irmão”, conta Antonieta, “aí eu peguei a mão dele e disse, não mate meu irmão que ele é filho único”. Os homens de Ajax, então começaram a cortar os paus que constituíam os alicerces da capela e seguiram a derrubada das pequenas casas de palha onde pernoitavam os romeiros. Sem nenhuma reação Venceslau, neste mesmo dia abandonou o lugar, deixando ao seu passo um estranho vozeiro de gemidos e gritos que o povo de Porto dos Santos ouvia durante toda a noite como murmúrios, não identificados, escoando pela mata.

Foto Luzia Brito


Venceslau partiu para Bom Despacho onde se hospedou na casa de seu Milton, a partir deste dia nunca mais comeu, se deixou morrer. Durante vinte dias, ficou quase sem pronunciar palavra até que um dia disse a sua irmã: “estou me acabando pela paixão que tomei”. Venceslau morria, segundo Antonieta, em 28 de setembro de 1961, mesma data que nascera. E após a morte do  eremita a lenda espalhou-se pelos lugares mais longínquos da ilha.


Foto Elza Moraes


Fonte: https://www.instagram.com/reservavenceslaumonteiro?utm_source=ig_web_button_share_sheet&igsh=ZDNlZDc0MzIxNw==

Fonte de Pesquisa: Memórias da Bahia e Gente das Águas


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