16 de jan. de 2026

A Lenda de Nossa Senhora da Piedade de Itaparica

 

Os antigos de Itaparica contam que a Igreja de Nossa Senhora da Piedade nunca esteve verdadeiramente vazia. Mesmo fechada, mesmo ferida pelo tempo, ela sempre foi habitada por algo maior que as paredes.


Dizem que, certa vez, Dona Maria, mulher simples e guardiã silenciosa da fé, foi abrir as portas da igreja para permitir a entrada de algumas pessoas. Quando empurrou a pesada porta de madeira, seu coração estremeceu: o chão do templo estava marcado por pegadas e coberto por fina areia, como se alguém tivesse acabado de entrar vindo da praia.

O espanto foi grande, pois há muitos anos a igreja não recebe missas, nem fiéis. O telhado, já castigado pelo abandono, havia sido rasgado por um raio, e a capela seguia em ruínas, esquecida pelos homens. Não havia explicação humana para aquelas marcas.

Foi então que Dona Maria lembrou do que os mais velhos sempre disseram.

Contam que Nossa Senhora da Piedade nunca abandonou Itaparica. Nos tempos da guerra, quando a praia foi tomada pelo som dos tiros e pelo gemido dos feridos, era ela quem caminhava entre os corpos, consolando os que sofriam. Dizem que os soldados feridos eram amparados por uma presença suave, que lhes estancava o medo e lhes dava forças para viver. Muitos juravam ter visto uma mulher de manto claro caminhando pela areia, indiferente às balas, chorando pelos filhos feridos da ilha.

Desde então, acredita-se que Nossa Senhora da Piedade continua a rondar aquele lugar.

Dona Maria afirma que já a viu, em silêncio, caminhando pela praia ao entardecer, com o rosto triste voltado para sua igreja abandonada. Ela caminha descalça pela areia, atravessa o tempo, entra no templo ferido e deixa no chão as marcas de sua passagem. São essas pegadas que, volta e meia, aparecem no interior da igreja — sinais de que a santa ainda vela por seu povo.

Dizem que ela chora porque sua casa está esquecida. Chora porque as missas cessaram. Chora porque o templo que acolheu orações, promessas e curas foi entregue ao descuido. E, enquanto não houver restauração, Nossa Senhora da Piedade continuará a caminhar da praia para a igreja, pedindo, em silêncio, que sua morada seja cuidada e que a fé do povo de Itaparica volte a ecoar entre aquelas paredes.

Assim, quando alguém encontrar areia no chão da igreja fechada, os antigos aconselham: não varra depressa. Aquilo não é sujeira. São os passos da Piedade, lembrando que a fé, quando abandonada, nunca deixa de caminhar.

12 de jan. de 2026

A Lenda da Borboleta Azul da Ilha de Itaparica


Os mais antigos contam que, nas florestas da Ilha de Itaparica, vive uma borboleta azul encantada. Ela não é apenas um inseto da mata, é espírito antigo, guardiã do caminho, mensageira entre o mundo visível e o invisível. Alguns a chamam de recado da floresta, outros dizem que é um ser elemental, filha do vento e da luz.

Quem entra na mata de Venceslau com o coração limpo, ela recebe. Não importa o passo, nem a palavra — a mata sente antes. A borboleta surge quando reconhece a intenção. Suas asas azuis cintilam como água viva ao sol, e seu bater é um chamado suave, um aviso de que se está sendo visto.

Para alguns, ela não vem só receber. Vai seguindo, voando adiante, guiando o caminho até a Nascente dos Milagres. Ali, dança entre as árvores, sobrevoa folhas e raízes, mostrando que aquele é um lugar sagrado. Seu balé é reza em movimento, e sua cor azul guarda o mistério do céu e das águas profundas.

Mas nem todos a veem. A mata não se abre para quem chega fechado por dentro. Quando o coração está trancado, a borboleta se recolhe. Ainda assim, há vezes em que ela aparece para os desconfiados, para os que carregam medo. E quando aparece, o medo cai. A desconfiança se desfaz. O encanto toma lugar, como se a alma lembrasse algo antigo que havia esquecido.

Um dia, contam, uma mãe e sua filha entraram na reserva para agradecer a espiritualidade. A borboleta azul pousou nelas, primeiro em uma, depois na outra, como quem reconhece parentes de espírito. As pessoas que as acompanhavam ficaram em silêncio encantadas, algumas sorriram, outras não conseguiam desviar o olhar. A mãe e a filha choraram. Não era tristeza — era lembrança da alma. Aquele dia ficou marcado como um milagre.

Desde então, muitos dizem que a borboleta azul aparece quando é preciso. Às vezes na Mata de Venceslau, às vezes em outros cantos da ilha, às vezes fora da mata, onde ninguém espera. Ela vem para confirmar caminhos, fortalecer pedidos, cuidar daqueles que caminham com ela no espírito. Vem para confortar, para renovar a fé, para lembrar que não se anda só.

Há quem a veja pela primeira vez e sinta como se ela dissesse:

“Estou aqui. É você. A mata te reconhece.

E há quem a veja de novo e entenda: 

“Você voltou.”

Porque o retorno verdadeiro não é do corpo, mas da alma.

Assim, a borboleta azul segue viva na mata de Venceslau, encantada, ancestral, guardiã dos segredos da Ilha de Itaparica. Quem tem olhos que respeitam, vê. Quem tem coração aberto, recebe.

3 de jan. de 2026

A COBRA ENCANTADA DE ITAPARICA


Dizem os antigos pescadores que há lugares onde a água não nasce apenas da terra, mas da memória. Um desses lugares é a Fonte da Bica, à beira-mar da Ilha de Itaparica, onde a água doce brota misteriosa entre o sal das marés, escorrendo silenciosa por uma antiga bica de bambu. Ninguém jamais encontrou a origem exata daquela nascente. Sabe-se apenas que ela vem da mata, atravessando raízes profundas, pedras antigas e segredos guardados pelo tempo.


Nas madrugadas de lua cheia, quando o vento muda de repente e o mar fica liso como espelho, pescadores juram ter visto ali uma sereia. Alguns dizem que ela canta baixo, outros afirmam que apenas observa, sentada sobre as pedras, como quem guarda a passagem entre dois mundos. Mas há quem saiba que a sereia não vem sozinha.


Das entranhas da Mata Atlântica de Itaparica, desliza a Cobra Encantada, uma criatura secular, com mais de vinte metros de comprimento, vista por pouquíssimas pessoas. As que a viram nunca mais foram as mesmas. Relatam que, quando ela passa, um vento forte surge do nada, dobrando árvores e silenciando os pássaros. Seus olhos são vermelhos como brasas antigas, e quem cruza seu olhar carrega essa imagem para o resto da vida.


A cobra percorre toda a ilha por caminhos invisíveis, trilhas que não aparecem nos mapas, mas que a mata reconhece. Um desses lugares é a Reserva Ecológica Venceslau Monteiro, conhecida por muitos como os Milagres. Ali, contam, que um morador de Amoreiras, Venceslau Monteiro se curou de uma grande enfermidade ao beber da nascente sagrada que brota no coração da mata. O eremita Milagreiro de Itaparica, homem simples, guardião das águas e dos mistérios.


Com ele vivia uma cobra. De dia, ela repousava sob uma grande pedra junto à nascente. À noite, ia até a cabana de Venceslau e dormia ao seu lado, como companheira antiga, silenciosa e protetora. Ele a chamava carinhosamente de Sininha. Não era bicho comum, nem era só cobra. Era guardiã, era encanto, era parte viva da mata.


Quando Venceslau foi expulso dos Milagres, algo se rompeu. A cabana ficou vazia, a mata silenciou, e Sininha desapareceu. Alguns dizem que ela se encantou de vez. Outros afirmam que ela apenas mudou de morada. Há quem jure que a Cobra da Fonte da Bica e Sininha são a mesma entidade, percorrendo a ilha por debaixo da terra e das águas.


O povo de Axé que já se deparou com ela na Mata de Venceslau descreve o mesmo tamanho descomunal, os mesmos olhos vermelhos, o mesmo vento súbito que antecede sua passagem. Muitos nunca mais retornaram à mata, tomados pelo respeito — ou pelo medo — da Cobra Encantada.


E como ensina o Caboclo Tupinambá dessas matas:

“Na Mata de Venceslau tem um segredo que o pecador não pode saber.”


Esse segredo jamais foi revelado. Mas quem escuta com atenção sabe: as matas da Ilha de Itaparica, assim como suas águas, guardam mistérios que não pertencem aos homens. São segredos dos encantados, dos que vivem entre o visível e o invisível, protegendo aquilo que só se mostra a quem tem o coração limpo e o passo respeitoso.


E assim, enquanto a fonte continuar a jorrar e o vento soprar sem aviso, a Cobra Encantada seguirá seu caminho, lembrando a todos que nem tudo deve ser visto — e nem tudo pode ser explicado.

A BONECA DE MANGUINHOS



Naquele dia, o mar de Manguinhos estava fechado.

Nenhum peixe se oferecia.

A rede voltava vazia,

como se o oceano estivesse guardando segredo.


Então veio o choro.

Não era vento,

não era ave.

Era choro de criança vindo do fundo do mar.


Os pescadores sentiram um arrepio.

Olharam em volta.

Não havia ninguém.


Mesmo assim, jogaram a rede,

porque no mar a gente respeita o chamado.

Quando puxaram,

não veio peixe,

nem corpo,

nem vida humana.


Mas o choro não cessava.


Com fé e atenção,

lançaram a rede mais uma vez,

no ponto exato do som.


Ao puxar, o mistério se revelou:

uma boneca branca e loira,

antiga,

intacta,

como se tivesse sido guardada pelas águas.


No instante em que a boneca tocou a canoa,

o choro silenciou.


E o mar se abriu.

Os peixes vieram.

A rede encheu.


A boneca foi acolhida pela comunidade.

Até hoje ela existe,

é cuidada, alimentada de respeito,

recebe reza, fundamento

e Santo no Candomblé.


Porque nem tudo que vem do mar é lixo.

Algumas coisas são recado.

Outras são sagradas.


🕊️ Relato do saudoso Abelhinha

(in memoriam)

Arco de Resistência: Os Tupinambá, as Alianças Africanas e a Verdadeira História da Independência em Itaparica

Imagem da Galeria Rizoma A consolidação da Independência do Brasil não se deu por meio de um decreto pacífico nas margens do Rio Ipiranga; e...