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| Imagem da Galeria Rizoma |
A consolidação da Independência do Brasil não se deu por meio de um decreto pacífico nas margens do Rio Ipiranga; ela foi conquistada com sangue, suor e uma imensa mobilização popular nos campos de batalha da Bahia entre 1822 e 1823. Nesse cenário de guerra, a Baía de Todos-os-Santos operou como um tabuleiro geopolítico crucial, e a Ilha de Itaparica ergueu-se como uma fortaleza intransponível contra as pretensões da Coroa Portuguesa. Na vanguarda dessa resistência praiana e mangueira, destacou-se a bravura e a herança tática dos povos originários, com especial protagonismo da etnia Tupinambá, que lutou lado a lado com os povos escravizados trazidos de África e seus descendentes. O Sangue Tupinambá e a Aliança com as Matrizes Africanas (1822–1823)Durante o cerco às tropas lusitanas comandadas pelo General Madeira de Melo, a Ilha de Itaparica sofreu constantes tentativas de invasão. O controle da ilha significava o controle das rotas de abastecimento que vinham do Recôncavo Baiano para alimentar o Exército Pacificador no continente. Para defender o território, ergueu-se uma milícia civil de pessoas comuns da terra. Embora o foco central dessa resistência estivesse na identidade e no território dos Tupinambás — os donos históricos do litoral baiano —, essa força tornou-se imbatível ao unir-se aos braços e saberes dos povos africanos escravizados e de seus descendentes (pretos livres e libertos). Embora a historiografia oficial da época frequentemente utiliza termos genéricos e embranquecidos como "caboclos" ou "população de cor" para catalogar esses combatentes, a estratégia militar adotada na ilha trazia a assinatura viva da herança indígena unida à força da resistência negra. Sob lideranças marcantes da ilha, como a marisqueira Maria Felipa, mulheres e homens negros somaram forces com os nativos nas praias e manguezais. Entre 1822 e o ápice dos combates na Batalha de Itaparica, encerrada em 7 de Janeiro de 1823, a vitória brasileira dependeu diretamente do conhecimento ancestral dos Tupinambá sobre as marés e os recifes de corais, combinado com a determinação de africanos e crioulos (negros nascidos no Brasil) que viam na expulsão dos portugueses uma promessa de liberdade. Os defensores da ilha atraíam os pesados navios portugueses para os canais rasos. Uma vez encalhadas na maré baixa, as embarcações inimigas tornavam-se alvos fáceis para ataques surpresa conduzidos por nativos e negros em canoas leves e jangadas. Armados com facões de cortar cana, lanças, piques e até água de cansaço e galhos de cansanção para queimar os rostos dos marinheiros invasores, eles repeliram as tropas europeias em combates violentos corpo a corpo nas areias de Ponta da Areia, Manguinhos e Amoreiras. O triunfo definitivo em 7 de janeiro garantiu que o Recôncavo continuasse livre e sufocou o exército português em Salvador, pavimentando o caminho para o definitivo 2 de Julho. Os Indícios Documentais da Presença Indígena no PeríodoPor muito tempo, as políticas coloniais — como o Diretório dos Índios de 1757, que proibiu o uso das línguas nativas, impôs sobrenomes portugueses e transformou antigos aldeamentos jesuítas em vilas comuns — tentaram apagar legalmente a identidade dos povos originários, registrados de forma genérica como "caboclos" ou "nativos". No entanto, indícios históricos e documentais incontestáveis comprovam que os Tupinambás estavam plenamente ativos e presentes na ilha durante o conflito. O registro mais contundente da burocracia militar da época aponta que, logo após a vitória de 7 de janeiro de 1823, o Conselho Interino de Governo da província emitiu ordens para reforçar a defesa de Itaparica contra possíveis ataques lusitanos. Para cumprir a missão, o Capitão-mor do Terço das Ordenanças dos Índios (vindo da vila de Santarém, atual Ituberá) marchou oficialmente com seus soldados indígenas para desembarcar em Itaparica. Esse deslocamento de tropas regulares formadas por indígenas, somado à permanência das famílias nativas que mantinham viva a transmissão de saberes — como a construção de pirogas e as táticas de pesca e cerco no mangue, confirma que os Tupinambás não eram figuras de um passado remoto, mas sim agentes políticos e militares vivos na consolidação da Independência. O Mito e a Manifestação: O Papel do Grupo "Os Guaranis"Ao analisar as celebrações contemporâneas que tomam as ruas de Itaparica todo dia 7 de janeiro, é comum que surjam dúvidas sobre quais etnias de fato guerrearam nas praias da ilha. Isso ocorre devido à marcante presença do Grupo Cultural Os Guaranis, uma das manifestações mais bonitas e tradicionais do patrimônio imaterial baiano. No entanto, cabe aqui um importante resgate da verdade histórica: não há absolutamente nenhuma relação da etnia Guarani com a Ilha de Itaparica no período de 1822 a 1823. O povo Guarani tem seu habitat histórico nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, além de países vizinhos da Bacia do Prata, nunca tendo integrado o teatro de guerra do Recôncavo Baiano. A presença do nome e da estética Guarani em Itaparica é um fenômeno puramente cultural e posterior, fruto do movimento literário e político conhecido como Indianismo, que ganhou força no Brasil na segunda metade do século XIX (com obras como O Guarani, de José de Alencar). Naquele período, a palavra "Guarani" passou a ser utilizada no imaginário popular nacional como um sinônimo poético para o "indígena forte, heróico e patriota". Cerca de um século após os combates reais, uma manifestação artística inspirada nessa estética foi trazida da cidade de Nazaré das Farinhas por um morador local de Itaparica, dando origem ao grupo há cerca de 80 anos. Nas festividades de 7 de janeiro, os integrantes do grupo — em sua maioria itaparicanos, muitos deles descendentes das próprias famílias negras e caboclas que lutaram no passado — pintam-se e vestem-se com trajes indígenas para encenar o Auto da Roubada da Rainha, uma belíssima performance de rua que homenageia o espírito guerreiro da ilha. Uma Memória Viva em Duas CamadasPortanto, a história de Itaparica na Independência divide-se em duas camadas que se complementam, mas que não devem ser confundidas: A Realidade Histórica (1822–1823): A luta armada e estratégica nas praias e mangues, protagonizada pelos descendentes da etnia Tupinambá — cuja presença física e militar é atestada inclusive pelo deslocamento do Terço dos Índios para a ilha — em aliança profunda com os povos africanos escravizados e seus descendentes, culminando na vitória de 7 de Janeiro de 1823. A Homenagem Cultural (Século XX e XXI): A celebração artística dessa bravura ancestral através do Grupo Cultural Os Guaranis, que utiliza a força mítica do nome "Guarani" para manter vivo o orgulho e a memória da resistência originária na Bahia. A Apoteose Cívica e Espiritual: A Divindade do CabocloEssa epopeia de liberdade não se encerra nos livros. Ela se materializa, ganha as ruas e o coração do povo baiano através da figura sagrada do Caboclo. Em todas as cidades da Bahia que foram palco das batalhas da Independência, o ápice das comemorações é marcado pelo desfile e pelo "puxado" do carro do Caboclo e da Cabocla — monumentos levados pelo povo que representam a soberania popular em detrimento dos heróis oficiais da elite. Na Ilha de Itaparica, essa manifestação atinge uma dimensão única, onde a história cívica e a espiritualidade das matrizes religiosas se fundem por completo. A puxada e a guardada do Caboclo Tupinambá Taparica não são meros atos protocolares; são ritos de profunda devoção popular conduzidos sob o ecoar sagrado do ponto cantado com fervor pelas ruas: "Tumbaê Caboclo (tumba lá e cá), Tumbaê guerreiro (tumba lá e cá), Tumbaê meu pai (tumba lá e cá), Não me deixe só..." É sob a força desse canto ritualístico que o povo reverencia o ancestral que protegeu e continua protegendo o território. Em Itaparica, a tradição histórica e a fé viva convivem em perfeita simbiose através de Tupinambá. Ele deixa de ser apenas uma lembrança do guerreiro que pegou em armas em 1823 para se firmar como a divindade dona da terra, a energia que cura, liberta e abençoa a ilha. Compreender o 7 de Janeiro é, acima de tudo, sentir a força desse canto e respeitar o sangue negro e a verdadeira identidade dos guerreiros Tupinambá que consagraram as areias de Itaparica à eterna liberdade do Brasil. |

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