Em uma manhã de sábado na Ilha de Itaparica nasceu com aquele mormaço típico, onde o vapor da terra parece se misturar ao sal do mar. Gomes mantinha as duas mãos firmes no volante, os olhos atentos aos buracos da estrada que levava à Reserva Ecológica Venceslau Monteiro. No banco do carona, sua sogra, dona Eli, impecável em suas vestes brancas, olhava para a paisagem com a tranquilidade de quem sabe exatamente para onde está indo.
Gomes estava ali por puro cavalheirismo. Homem de rotinas exatas, com uma vida inteira já estruturada e beirando os sessenta anos de idade, sua espiritualidade resumia-se às memórias de infância. Quem rezava e carregava a força ancestral em sua história de sangue era sua própria mãe, uma rezadeira forte e respeitada de Muritiba, lá no Recôncavo da Bahia. Fora vendo as mãos de sua mãe abençoarem tantos aflitos que Gomes aprendeu o valor do invisível, embora tivesse guardado esse respeito em uma gaveta silenciosa da mente por décadas. Para ele, aquele sábado seria apenas o dia em que faria o favor de levar dona Eli ao Sítio dos Milagres para uma de suas reuniões mensais.
Ao estacionar sob a sombra de um imponente lambari, o motor do carro silenciou, dando lugar ao som vivo da Mata Atlântica.
— Venha, meu filho. Entre um pedaço — convidou dona Eli, ajeitando a saia alva com os olhos fixos nos dele. — Não precisa ficar no carro esperando. A mata hoje está chamando.
Gomes hesitou. Olhou para o celular, viu que ali o sinal já não existia, e deu de ombros. "Que mal faz?", pensou.
Eles caminharam por uma trilha estreita, onde a luz do sol mal conseguia tocar o chão, filtrada pela copa densa das árvores centenárias. O ar ali era diferente — mais fresco, com cheiro de folha lavada e terra fértil. Logo, chegaram a um espaço reservado, um círculo perfeito no coração da floresta, onde algumas dezenas de pessoas já se acomodavam. Era um encontro ecumênico, simples, sem altares luxuosos. Apenas a natureza, as pessoas e a fé.
A reunião começou de forma pura e despojada, sem o auxílio de nenhum instrumento musical. O silêncio da clareira foi preenchido primeiro pelas rezas cristãs ditadas em uníssono, um som que confortou o coração de Gomes pela familiaridade e pela lembrança imediata de sua mãe rezando lá em Muritiba. Depois, houve uma palestra curta sobre o amor e a caridade.
Mas foi quando o grupo uniu as vozes em coro que a atmosfera se transformou. Sem violão, atabaque ou palmas, as pessoas começaram a entoar cânticos sagrados. O som, gerado apenas pelas cordas vocais e pelo peito de cada um, reverberava nos troncos das árvores e subia até as copas, criando uma vibração orgânica, profunda e hipnótica. Foi nesse momento, envolvido por aquela melodia puramente vocal que parecia saída das próprias entranhas da terra, que o mundo de Gomes começou a flutuar.
No meio do círculo, ele sentiu um vento gelado passar por suas pernas. Estranhou. O dia estava abafado.
De repente, a temperatura do seu corpo despencou. Um calafrio violento subiu por sua espinha, arrepiando cada pelo de seus braços. Gomes tentou dar um passo para trás, mas suas botas pareciam fundidas às raízes do chão. Ele quis falar, dizer a dona Eli que estava passando mal, mas a mandíbula travou. Suas mãos começaram a curvar-se sozinhas, os dedos rígidos. O peito inflou de um ar que ele não conseguia puxar, mas que já estava lá dentro, queimando. Quem já sentiu o peso do sagrado sabe: o corpo de um homem de quase sessenta anos, acostumado ao controle de si, já não pertencia a ele.
O ambiente ao redor pareceu entrar em câmera lenta. O coro de vozes humanas se distanciou na mente dele, tornando-se um eco surdo.
E então, o silêncio da mata foi rasgado.
Não foi um grito de dor, nem de pavor. Foi um brado retumbante, um rugido forte, ancestral e imperial que fez as folhas do velho lambari e das árvores mais altas tremerem. Os pássaros levantaram voo em revoada.
— Okê Caboclo! — exclamou alguém no círculo, enquanto as pessoas abriam espaço, assustadas e maravilhadas com a força daquela energia.
Gomes tombou o corpo para a frente, mas não caiu. Seus pés batiam no chão com a firmeza de um tronco secular. O senhor pacato e reservado havia sumido. Seus olhos, agora brilhantes e focados, encaravam o horizonte da floresta. O Sultão das Matas havia chegado.
Dona Eli e os mais velhos do terreiro aproximaram-se rapidamente, com respeito e reverência, batendo cabeça para a entidade. O Caboclo bateu no peito, soltou uma gargalhada grave que ecoou pelo Sítio dos Milagres e, com uma voz que parecia vir do fundo dos tempos, falou:
— Há mais de vinte anos que eu espero este moço...
A surpresa tomou conta do lugar. Mais de cinquenta anos era quase toda a existência de Gomes. A espiritualidade aguardava pacientemente desde a sua infância, guardando sua matéria e respeitando o seu tempo, até que ele finalmente pisasse no solo sagrado daquela ilha. Era o fechamento de um ciclo litúrgico guardado em segredo, conectado às suas raízes pelo sangue e pelas rezas antigas de sua mãe em Muritiba.
O Sultão das Matas não perdeu tempo. Com passos largos e imponentes, a entidade de Caboclo começou a trabalhar. Chamou os necessitados, distribuiu passes, soprou fumaça de cura e deu orientações com a sabedoria de quem conhece cada folha e cada mistério da vida.
Naquele momento de transe e luz, uma fresta no plano espiritual se abriu para os que sabiam enxergar. Atrás do Sultão, dando sustentação àquela coroa de energia, desenhou-se a imensa falange dos Encantados. À direita, a força certeira e cortante do Caboclo Sete Flechas; à esquerda, a medicina sutil e as rezas de cura do Pajezinho. E, logo atrás, sentados em troncos invisíveis, a falange dos Pretos Velhos sorria, desfiando suas contas e abençoando com amor aquele resgate ancestral que acontecia na maturidade da vida de Gomes.
Quando o sol começou a baixar e o Sultão das Matas subiu de volta para as suas copas, Gomes desceu lentamente. Suas pernas fraquejaram por um segundo, sendo amparado pelos braços carinhosos e acolhedores de dona Eli.
Ele limpou o suor da testa, olhou para as próprias mãos e depois para a imensidão da Reserva Venceslau Monteiro. Não havia medo em seu peito, apenas uma paz profunda e avassaladora. Gomes entrou na mata carregando o peso e as certezas de quase sessenta anos de vida linear. Saiu dali sabendo que sua verdadeira jornada na Terra estava apenas começando, sob a força e a proteção de uma dinastia de reis das florestas.

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