7 de jun. de 2026

Andanças de Fé: A Trezena de Itaparica

 

Em Itaparica, o tempo tem outro ritmo. A devoção a Santo Antônio, herança do Brasil Colônia, rompeu os séculos e fincou raízes profundas. Embora o catolicismo já não pulse com a mesma força de antes, a tradição permanece viva, movida por uma fé que se renova a cada geração.

O maior encanto dessas andanças pelas ladeiras da ilha é ouvir as rezadeiras. Com os olhos brilhando de orgulho, elas contam como tudo começou. O amor delas é um ímã: atrai de forma sutil pessoas que nunca tiveram ligação com o santo, mas que, ao pisarem numa trezena, são fisgadas pelo afeto da comunidade.

Antigamente, as rezas ocupavam as igrejas. Com o tempo, ganharam o aconchego dos lares. De 1 a 13 de junho, a ilha vira um imenso altar itinerante, do Alto de Santo Antônio à Rua dos Patos, passando pela Avenida 25 de Outubro e pela Comunidade da Misericórdia. A solidariedade dita as regras do calendário: quem tem devoção, mas não tem a imagem, recebe o santo emprestado de uma vizinha. O "Antoninho" passeia, abençoa e depois volta para sua casa de origem para ser louvado.

Nessas salas cheias, há espaço para todos os gostos. Há santos de madeira com mais de cem anos, de gesso, de barro, de tecido; imagens minúsculas e outras do tamanho de gente. Tem até ateu que entra na dança e se veste como o santo, porque em Itaparica a tradição abraça a todos com alegria.

Nos intervalos, a mesa é um espetáculo à parte. O aroma do passado se mistura ao presente: ao lado de comidas modernas, nunca faltam o tradicional mingau de arroz, o mungunzá quentinho, o milho cozido, bolos diversos, a canjica e aquele licor caprichado para aquecer a alma.

Engana-se quem pensa que ele é só casamenteiro. Para o povo da ilha, Santo Antônio é aquele que ajudou a erguer a casa própria, que curou doenças impossíveis e que, diz a lenda, participou até de batalhas históricas nas bandas de Salvador.

Assim, de casa em casa, nosso Santo Antoninho vai cuidando da gente. É por isso que, entre uma reza e um gole de licor, eu também sorrio e aperto contra o peito o meu Santo Antônio querido. Viva a tradição de Itaparica!


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