4 de jun. de 2026

Onde a Infância Encontra o Sagrado



Para a pequena Luamar, o pôr do sol não era o fim do dia, mas o início do seu verdadeiro mundo. Toda tarde, ao voltar da escola onde corria com os amigos e interagia com a vizinhança, ela cruzava o portal invisível do sono. Enquanto seu corpo descansava, sua alma se teletransportava para uma floresta majestosa.

Ali, ela não era apenas uma menina; era parte da própria terra. Entendia o idioma dos pássaros e caminhava em perfeita harmonia com a fauna e a flora. Naquele refúgio verde, a liberdade era absoluta. Esse portal abria-se todas as noites até seus 12 anos. Quando o sonho teimava em sumir, Luamar fechava os olhos com força, concentrando sua energia mental para forçar a passagem de volta ao seu lugar de paz.

O tempo passou e as responsabilidades adultas fecharam as portas daquela dimensão. Mas a floresta não esquece quem a ama. Aos 17 anos, como um sussurro do destino, ela anunciou: "Um dia, vou morar na Ilha".

A promessa cumpriu-se com a naturalidade das marés. Aos 26 anos, o destino a trouxe para a Ilha de Itaparica. O chamado começou a pulsar através do voluntariado em uma ONG ambiental, mas foi ao pisar no solo sagrado da Reserva Venceslau que o milagre aconteceu.

Ao caminhar sob a copa das árvores e respirar o aroma da mata, Luamar sentiu um estalo na alma. O manto do esquecimento caiu. Aqueles troncos, o farfalhar das folhas, a conexão profunda com os mistérios visíveis e invisíveis... era o mesmo lugar. O sonho de infância não era fantasia: era o chamado ancestral da floresta, um ensaio espiritual para o seu destino.

Hoje, enraizada nessa terra mágica, Luamar olha para o horizonte sabendo que o cotidiano e o sagrado finalmente se fundiram. O tempo ali já não se conta em anos, mas em folhas que caem e sementes que brotam. A menina que forçava a mente para ver a floresta hoje caminha por ela de olhos bem abertos, desperta, livre e em casa.

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