19 de mai. de 2026

"A Egrégora da Colina"

A História de Dona Senhorinha e Eli


O Alto da Colina em Sítio do Meio

Quem passava pelos caminhos de terra de Sítio do Meio, na região de Entre Rios, sabia exatamente onde a paz morava. Bastava olhar para o alto da colina. Lá vivia Dona Senhorinha, uma mulher da terra, de alma simples e sorriso farto. Sua marca registrada eram os longos e lindos cabelos brancos, sempre asseados e presos em um coque firme, como se guardassem a sabedoria dos anos.

Dona Senhorinha transbordava um mistério bom: por onde seus pés passavam, o ambiente mudava. As pessoas sentiam-se subitamente leves, confortadas e alegres. Ela era o próprio acalanto em forma de gente.

A vida de Senhorinha era tecida no chão da fazenda arrendada onde morava. Naquele tempo, as famílias plantavam para comer e viviam do que a terra dava, dividindo o suor com os donos do chão. Mas a relação de Senhorinha com os fazendeiros rompeu as barreiras do trabalho; virou amizade sincera. Sendo a parteira e rezadeira mais respeitada da região, era ela quem trazia a luz aos filhos da colônia e também aos filhos do patrão.

Suas mãos, calejadas da lida e suaves na oração, guiaram dezenas de choros primeiros ao mundo. Conheceu a dor profunda da vida — como no dia em que, ironicamente, em um parto feito por ela, seu próprio neto não nasceu com vida —, mas transformou o luto em ainda mais amor para dar.

Um dia, as mãos de Senhorinha apararam o filho caçula do fazendeiro. Ao ver o bebê forte, ela sorriu e profetizou:

— É um menino grande e moreno!

E assim o menino ficou conhecido. O tempo, que não para, fez o "Moreno" crescer.



Encontros Marcados pelo Destino

Moreno tornou-se homem, ganhou o mundo e casou-se com Eli, uma mulher de coração generoso. Quando Eli pisou pela primeira vez naquela região e conheceu Dona Senhorinha, o tempo pareceu parar. Não foi um conhecimento de véspera; foi amizade à primeira vista. Um reconhecimento de almas que pareciam já se buscar.

A partir dali, sempre que o casal viajava para visitar os sogros na fazenda, a parada de Eli era certa e sagrada: o alto da colina. As duas sentavam, conversavam sobre as coisas simples da vida, trocavam olhares de cumplicidade e costuravam um afeto que desafiava a diferença de idade. Senhorinha e Eli tornaram-se confidentes.

Mas a vida é feita de partidas. O casal "Moreno e Eli" criou asas, mudando-se para outras regiões da Bahia. O tempo pesou nos ombros de Senhorinha e, com a naturalidade de quem cumpre uma linda missão, a velha rezadeira fechou os olhos para o mundo material. Desencarnou. Deixou a colina vazia, mas a memória viva.



O Reencontro na Ilha de Itaparica

Anos mais tarde, os caminhos de Eli e sua família desaguaram nas águas sagradas da Ilha de Itaparica. Longe de Entre Rios, Eli sentiu o chamado do invisível e começou a dar os primeiros passos na espiritualidade. Buscou o desenvolvimento espiritual em um centro espírita.

Foi em uma dessas noites de recolhimento, prece e silêncio d'alma, que o mistério se revelou. Entre os benfeitores que se aproximaram para trabalhar, uma figura terna e conhecida se fez presente. Os cabelos brancos em coque, o rastro de leveza, o abraço que confortava... Era ela. Dona Senhorinha estava de volta.

O que a vida física havia interrompido, a espiritualidade deu continuidade. Senhorinha não havia partido; tinha apenas mudado de plano para continuar cuidando.



A Egrégora Imortal

Já se passaram mais de 30 anos desde que esse reencontro aconteceu. Hoje, Dona Eli e Dona Senhorinha trabalham juntas, lado a lado, em um laço espiritual indestrutível. Uma na terra, a outra no plano sutil, mas perfeitamente sintonizadas.

Através do canal de amor que criaram, elas continuam distribuindo o que sempre souberam dar:

  • A cura através da reza com folhas frescas;

  • O alívio por meio de uma oração sincera;

  • O norte através de uma palavra sábia;

  • E o calor de um abraço amigo.

O que um dia foi cuidado em vida, tornou-se cuidado em encantamento.

E o "menino moreno", que Senhorinha viu nascer, continua sendo guardado de perto por sua esposa Eli e pelo espírito de sua eterna parteira. Esse cuidado estendeu-se por toda a família — a consanguínea e a espiritual. Hoje, parentes, amigos e todos aqueles que cruzam o caminho de Eli e Senhorinha sentem a mesma alegria forte, o mesmo afeto e o mesmo perfume de mato molhado que subia a colina de Sítio do Meio.

Porque os laços de verdade não pertencem à terra. Eles pertencem ao espírito. E a egrégora dessas mulheres mães, fortes e amorosas, permanece viva, curando o mundo um abraço de cada vez.

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