Em 28 de setembro de 2024, após as honras a Venceslau Monteiro, o destino me levou a um espaço de consagração e busca espiritual. Eu acreditava que, por já trilhar um caminho de autoconhecimento e fé, todos os meus portais estavam abertos e que a Jurema Preta traria apenas uma cura física para o meu corpo. Eu ainda não sabia que a força das plantas não pede licença; ela derruba certezas para erguer verdades.
Ao redor de uma fogueira, os indígenas da etnia Kariri Xocó entoavam cânticos ancestrais enquanto preparavam a medicina sagrada. Ao meu lado estava Pajezinho, guia espiritual de um amigo guardião, meu mestre e amigo de caminhada. O amargo da primeira dose desafiou meu paladar e, entre a impaciência humana e a urgência da alma, tomei o restante de uma vez. O "tombo" veio como uma onda avassaladora. Pajezinho, com sua percepção de mestre, viu a força do transe que me tomou e percebeu imediatamente que meu espírito já havia recebido o que precisava, não sendo necessário prosseguir com as outras doses.
Lá, no coração do transe, as fronteiras do tempo se dissolveram. Eu era uma anciã entre os seus, pertencendo àquela terra e àquela história. Ao meu lado, um indígena de pele vermelha e estatura alta estendeu-me as mãos. Segurá-las foi o meu único porto seguro enquanto eu sentia a necessidade visceral de abraçar uma árvore e fundir-me à floresta. O som do Toré e o peso da maracá me traziam de volta à superfície, mas era no silêncio do cachimbo que a profundidade espiritual se tornava absoluta.
A cura veio pelo expurgo, pela limpeza da terra e pelo sopro do Cacique em meus ouvidos. Somente quando retornei à Ilha de Itaparica é que o equilíbrio se restabeleceu. Meses depois, na quietude da casa de meus pais, a visão se completou: o caboclo de pele vermelha apareceu rapidamente e disse as palavras que selariam nosso pacto: "Eu sou Katendê".
A prova final de sua guarda veio em uma cirurgia de risco. Katendê manifestou-se na mesa de operação com sua cabaça, derramando um líquido verde restaurador sobre meu corpo aberto. Naquele momento, ficou claro que, além dos meus guias, eu contava com uma falange amiga de caboclos me orientando. Hoje, entendo que a Jurema me apresentou ao senhor das folhas, o guardião que agora caminha comigo em cada trilha sagrada.

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