12 de mai. de 2026

Presente de Iemanjá de Porto dos Santos


Nas areias de Porto dos Santos, na Ilha de Itaparica, reside uma história que pulsa no ritmo das marés e no coração da família Costa Lima. Tudo começou em 1940, quando o Sr. Vitório, um respeitado dono de gado e de saveiros, decidiu que a sua devoção à Rainha do Mar deveria tornar-se um marco para a sua terra.


Os filhos do Sr. Vitório, homens do mar que serviam como mestres e contra-mestres em saveiros, eram os braços dessa tradição. Eles transportavam gado de corte até o Porto de Saubara, na Baía de Todos os Santos, e faziam das suas embarcações extensões do altar sagrado. Naquela época, a preparação do Presente era um ritual íntimo, realizado na casa da família pelas mãos habilidosas de suas filhas, afilhadas e sobrinhas.

Os ritos aconteciam perto do antigo matadouro, à beira-mar, onde a religião de matriz africana encontrava o seu espaço sob a orientação direta dos Orixás. A família Lima era a guardiã desses preceitos, zelando por cada detalhe com uma fé inabalável. No entanto, em 13 de dezembro de 1979, o falecimento do Sr. Vitório trouxe um silêncio profundo. Em sinal de respeito ao seu patriarca, a comunidade e o presente guardaram três anos de luto.


Após esse período, a tradição renasceu com novas nuances e hoje o Presente de Iemanjá de Porto dos Santos desdobra-se em dois momentos significativos:

  • Janeiro - A Festa da Padroeira: Em comunhão com a Festa de Nossa Senhora do Amparo, o presente é organizado por uma comissão e um juiz escolhido pela comunidade e pela igreja. É um momento onde a comunidade contribui com um balaio, mantendo vivo o sincretismo que passou a definir a festa após o luto pelo Sr. Vitório.

  • Fevereiro - A Raiz da Família Lima: No mês tradicional de Iemanjá, a essência iniciada em 1940 é celebrada pelo Ilê Axé Loci Omi Odé. Sob a liderança do Pai Lula de Logun Edé, descendente da família Lima, o presente resgata a ancestralidade pura da linhagem.

O legado de devoção segue firme através dos tempos, mantido por figuras como Preta, Dedeia, Luiza, Mônia e Lula, que são os pilares e mantenedores da tradição familiar. Desde 2010, Luís Cláudio Lima dedica-se a este resgate, honrando a trajetória que os seus antepassados iniciaram há mais de oitenta anos.

Nesta mesma Porto dos Santos, a espiritualidade também encontra refúgio nas matas através da história de Venceslau Monteiro. Venceslau foi um símbolo de proteção, cuja ligação com a terra e com a preservação ambiental se entrelaça com a importância religiosa da comunidade. A Reserva Ecológica que leva o seu nome funciona como um santuário onde o sagrado das águas e o sagrado das ervas se unem para proteger a alma de Itaparica.

Contudo, este conto de resistência enfrenta um desafio moderno: a falta de interesse público. Apesar da profundidade histórica desta manifestação cultural e religiosa tão importante para Itaparica, a valorização oficial ainda é escassa. Sem o devido apoio para preservar este patrimônio, corre-se o risco de deixar naufragar o que a família Lima e a comunidade de Porto dos Santos lutam para manter navegando, geração após geração. 

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