3 de mai. de 2026

O Ritual do Reencontro: Quando a Alma Dança sobre as Águas

Existem sonhos que não são apenas imagens, mas portais. Anos atrás, vi-me caminhando pela Reserva Venceslau, próximo à cabana do Caboclo Aimoré. Naquele silêncio místico, o mundo espiritual se materializou: uma indígena juvenil, de corpo robusto e pele avermelhada, surgiu entre as árvores. Seus longos cabelos pretos eram sua única vestimenta, e seus olhos falavam diretamente ao meu terceiro olho, sem que uma única palavra fosse dita. Ela se apresentou como minha guia, mas a mente humana, sempre cética, buscou refúgio no movimento.



Deixei a cabana e segui para a nascente, subindo depois até o Cruzeiro da reserva. Lá, aos pés da cruz, um ancião de barba longa e vestes alvíssimas me aguardava.

— Luzes, você acabou de conhecer sua indígena — disse ele mentalmente, lendo minha dúvida. — Quem é o senhor? — perguntei em pensamento. — Sou eu, Venceslau. Sou eu, Venceslau — repetiu ele, antes que o despertar me trouxesse de volta à terra.

O tempo passou, mas a energia daquele encontro ficou guardada. Quase um ano depois, retornei à reserva com uma missão: auxiliar um dos guardiões em um ritual de agradecimento. Ao pisar na área da Fonte dos Milagres, o tempo do sonho e o tempo dos homens se tornaram um só.

Fui tomada por uma força avassaladora. Meus pés, antes contidos, começaram a dançar na nascente. Eu jogava a água para o alto em um batismo de alegria e luz. Logo, a energia mudou; tornou-se densa, forte, vinda das entranhas do chão. Meus pés pisoteavam a terra com autoridade e dançavam sobre as águas com uma cadência ancestral que eu não conhecia, mas que meu corpo reconhecia como sua.

No auge daquela dança espiritual, a voz do Pajezinho atravessou o transe, trazendo a confirmação que o senhor de branco previra no Cruzeiro:

— Esta é a sua indígena. É a Pataxó.

Naquele momento, sob o céu do Venceslau, compreendi que eu nunca estive sozinha. A guardiã de pele vermelha que me visitara no sono agora reivindicava seu lugar em minha vida, dançando comigo entre o barro, a água e a fé.

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