A BONECA DE MANGUINHOS



Naquele dia, o mar de Manguinhos estava fechado.

Nenhum peixe se oferecia.

A rede voltava vazia,

como se o oceano estivesse guardando segredo.


Então veio o choro.

Não era vento,

não era ave.

Era choro de criança vindo do fundo do mar.


Os pescadores sentiram um arrepio.

Olharam em volta.

Não havia ninguém.


Mesmo assim, jogaram a rede,

porque no mar a gente respeita o chamado.

Quando puxaram,

não veio peixe,

nem corpo,

nem vida humana.


Mas o choro não cessava.


Com fé e atenção,

lançaram a rede mais uma vez,

no ponto exato do som.


Ao puxar, o mistério se revelou:

uma boneca branca e loira,

antiga,

intacta,

como se tivesse sido guardada pelas águas.


No instante em que a boneca tocou a canoa,

o choro silenciou.


E o mar se abriu.

Os peixes vieram.

A rede encheu.


A boneca foi acolhida pela comunidade.

Até hoje ela existe,

é cuidada, alimentada de respeito,

recebe reza, fundamento

e Santo no Candomblé.


Porque nem tudo que vem do mar é lixo.

Algumas coisas são recado.

Outras são sagradas.


🕊️ Relato do saudoso Abelhinha

(in memoriam)

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