A COBRA ENCANTADA DE ITAPARICA

Dizem os antigos pescadores que há lugares onde a água não nasce apenas da terra, mas da memória. Um desses lugares é a Fonte da Bica, à beira-mar da Ilha de Itaparica, onde a água doce brota misteriosa entre o sal das marés, escorrendo silenciosa por uma antiga bica de bambu. Ninguém jamais encontrou a origem exata daquela nascente. Sabe-se apenas que ela vem da mata, atravessando raízes profundas, pedras antigas e segredos guardados pelo tempo.
Nas madrugadas de lua cheia, quando o vento muda de repente e o mar fica liso como espelho, pescadores juram ter visto ali uma sereia. Alguns dizem que ela canta baixo, outros afirmam que apenas observa, sentada sobre as pedras, como quem guarda a passagem entre dois mundos. Mas há quem saiba que a sereia não vem sozinha.
Das entranhas da Mata Atlântica de Itaparica, desliza a Cobra Encantada, uma criatura secular, com mais de vinte metros de comprimento, vista por pouquíssimas pessoas. As que a viram nunca mais foram as mesmas. Relatam que, quando ela passa, um vento forte surge do nada, dobrando árvores e silenciando os pássaros. Seus olhos são vermelhos como brasas antigas, e quem cruza seu olhar carrega essa imagem para o resto da vida.
A cobra percorre toda a ilha por caminhos invisíveis, trilhas que não aparecem nos mapas, mas que a mata reconhece. Um desses lugares é a Reserva Ecológica Venceslau Monteiro, conhecida por muitos como os Milagres. Ali, contam, que um morador de Amoreiras, Venceslau Monteiro se curou de uma grande enfermidade ao beber da nascente sagrada que brota no coração da mata. O eremita Milagreiro de Itaparica, homem simples, guardião das águas e dos mistérios.
Com ele vivia uma cobra. De dia, ela repousava sob uma grande pedra junto à nascente. À noite, ia até a cabana de Venceslau e dormia ao seu lado, como companheira antiga, silenciosa e protetora. Ele a chamava carinhosamente de Sininha. Não era bicho comum, nem era só cobra. Era guardiã, era encanto, era parte viva da mata.
Quando Venceslau foi expulso dos Milagres, algo se rompeu. A cabana ficou vazia, a mata silenciou, e Sininha desapareceu. Alguns dizem que ela se encantou de vez. Outros afirmam que ela apenas mudou de morada. Há quem jure que a Cobra da Fonte da Bica e Sininha são a mesma entidade, percorrendo a ilha por debaixo da terra e das águas.
O povo de Axé que já se deparou com ela na Mata de Venceslau descreve o mesmo tamanho descomunal, os mesmos olhos vermelhos, o mesmo vento súbito que antecede sua passagem. Muitos nunca mais retornaram à mata, tomados pelo respeito — ou pelo medo — da Cobra Encantada.
E como ensina o Caboclo Tupinambá dessas matas:
“Na Mata de Venceslau tem um segredo que o pecador não pode saber.”
Esse segredo jamais foi revelado. Mas quem escuta com atenção sabe: as matas da Ilha de Itaparica, assim como suas águas, guardam mistérios que não pertencem aos homens. São segredos dos encantados, dos que vivem entre o visível e o invisível, protegendo aquilo que só se mostra a quem tem o coração limpo e o passo respeitoso.
E assim, enquanto a fonte continuar a jorrar e o vento soprar sem aviso, a Cobra Encantada seguirá seu caminho, lembrando a todos que nem tudo deve ser visto — e nem tudo pode ser explicado.


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