A Lenda de Nossa Senhora da Piedade de Itaparica

 

Os antigos de Itaparica contam que a Igreja de Nossa Senhora da Piedade nunca esteve verdadeiramente vazia. Mesmo fechada, mesmo ferida pelo tempo, ela sempre foi habitada por algo maior que as paredes.


Dizem que, certa vez, Dona Maria, mulher simples e guardiã silenciosa da fé, foi abrir as portas da igreja para permitir a entrada de algumas pessoas. Quando empurrou a pesada porta de madeira, seu coração estremeceu: o chão do templo estava marcado por pegadas e coberto por fina areia, como se alguém tivesse acabado de entrar vindo da praia.

O espanto foi grande, pois há muitos anos a igreja não recebe missas, nem fiéis. O telhado, já castigado pelo abandono, havia sido rasgado por um raio, e a capela seguia em ruínas, esquecida pelos homens. Não havia explicação humana para aquelas marcas.

Foi então que Dona Maria lembrou do que os mais velhos sempre disseram.

Contam que Nossa Senhora da Piedade nunca abandonou Itaparica. Nos tempos da guerra, quando a praia foi tomada pelo som dos tiros e pelo gemido dos feridos, era ela quem caminhava entre os corpos, consolando os que sofriam. Dizem que os soldados feridos eram amparados por uma presença suave, que lhes estancava o medo e lhes dava forças para viver. Muitos juravam ter visto uma mulher de manto claro caminhando pela areia, indiferente às balas, chorando pelos filhos feridos da ilha.

Desde então, acredita-se que Nossa Senhora da Piedade continua a rondar aquele lugar.

Dona Maria afirma que já a viu, em silêncio, caminhando pela praia ao entardecer, com o rosto triste voltado para sua igreja abandonada. Ela caminha descalça pela areia, atravessa o tempo, entra no templo ferido e deixa no chão as marcas de sua passagem. São essas pegadas que, volta e meia, aparecem no interior da igreja — sinais de que a santa ainda vela por seu povo.

Dizem que ela chora porque sua casa está esquecida. Chora porque as missas cessaram. Chora porque o templo que acolheu orações, promessas e curas foi entregue ao descuido. E, enquanto não houver restauração, Nossa Senhora da Piedade continuará a caminhar da praia para a igreja, pedindo, em silêncio, que sua morada seja cuidada e que a fé do povo de Itaparica volte a ecoar entre aquelas paredes.

Assim, quando alguém encontrar areia no chão da igreja fechada, os antigos aconselham: não varra depressa. Aquilo não é sujeira. São os passos da Piedade, lembrando que a fé, quando abandonada, nunca deixa de caminhar.

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